Janeiro

Elogio à Tropa de Lisboa, que se imortalizou com os cidadãos, que a acompanharam no memorável dia 15 de Setembro de 1820 recitado no Theatro de S. Carlos por F.B.. Lisboa: Nova Impressão da Viúva Neves e Filhos, 1820. - [6] p.; 19 cm.
Coleção Vieira da Silva, VS 1341/D2, enc. com outras obras
Cota: ED 115-P

 

 

Períodos de instabilidade política e social tendem, inevitavelmente, a fraturar a sociedade. Bem sabemos que enquanto uns congeminam aceleradamente para construir um ethos de mudança, outros freiam, e outros há que esgrimam energicamente para conservar o seu status quo. Pelo que, uns e outros, desfilam o seu argumentário com vista a arregimentar aliados que possam robustecer a respetiva causa/ideologia. Corria o ano de 1820, e numa linguagem mais coloquial podemos dizer que eram muitos os “meios para atingir os fins”, o que, e se recordarmos que ainda não havia sido difundida a palavra escrita (que viria a suceder, depois, na segunda metade desse século com a massificação dos jornais) e que mais de ¾ da população era analfabeta, acaba por não corresponde por completo à verdade. Ainda assim usavam-se todos os canais de comunicação de que se dispunha à época, e a quotidianidade da vida, como facilmente se depreende, acabava por se tornar fértil – fazendo-se assim um “meio” por excelência. E tanto o sermão numa missa como a música ou declamação de poesia nos meios artísticos podiam servir de instrumentos políticos e, nesse sentido, constituíam-se veículos propagandísticos1, e, paralelamente, eram uma espécie de primeiro convite (encapuzado) dirigido à população.

Nesse âmbito o Teatro de São Carlos2, a par de outros congéneres, ocupou lugar de destaque na causa liberal. E, pela clareza das palavras resolveu trazer-se Francisco da Fonseca Benevides, com o seu Estudo Histórico sobre o Real Theatro de S. Carlos de Lisboa, “como quase sempre sucede, os acontecimentos políticos tiveram o seu eco de aplausos e vivas nos teatros” (1883: 121).

E, logo no primeiro ano daquele que viria a ficar conhecido como o triénio vintista (1820-1823) o Teatro de São Carlos3, que como é sabido tem nas suas origens uma relação estreita com a burguesia letrada de Lisboa, traz à ribalta o Elogio à Tropa de Lisboa, que se imortalizou com os cidadãos, que a acompanharam no memorável dia 15 de Setembro de 1820 recitado por F. B. e improvisado por J.R.G. (e ainda que tenhamos recorrido a Martinho da Fonseca com esperança de que a sua obra Subsídios para um Dicionário de Pseudónimos nos pudesse ajudar, o mesmo não se veio a verificar). E foi também nesse mesmo teatro e nesse mesmo ano que se representou O4 génio Lusitano triunfante: drama alegórico à Constituição, com música do compositor e maestro italiano Carlo Coccia e texto de Filippe Hilbrath, para solenizar a Revolução.

A composição poética panegírica do movimento das Tropas de Lisboa é capaz de nos apresentar, em versos cruzados (incompletos) e rima externa, em traços largos a Revolução de 1820.

O primeiro verso que inaugura a primeira estrofe é indubitavelmente uma ode à (tropa da) cidade de Lisboa: Viva a tropa de Lisboa, remetendo-nos imediatamente para o Rossio (que merece menção posterior, iniciando a sétima estrofe) e para o dia 15 de setembro de 1820 (Dia de immortal memoria!, conforme é referido na sexta estrofe), e associando-a à ideia de libertação da pátria: Vêla um dia libertada.          

A segunda estrofe começa por homenagear a cidade do Porto5, génese do movimento revolucionário: O heróico exemplo do Porto e prossegue enfatizando  a ideia já inaugurada de libertação: Põe já termo á escravidão.   

A terceira estrofe é toda ela, e ao encontro do que já tivemos oportunidade de aludir atrás, um convite (elogioso) à adesão da causa liberal: Não deixes briosa gente (A) / Este momento escapar (B) / Que vai pelo mundo inteiro (--) / Teu nome immortalisaar (B).     

A nona estrofe clama veemente pela monarquia constitucional: Viva o Rei! repetem todos / E viva a Constituição! / Decifrando estas palavras / Destes Heroes a missão.  

E a décima estrofe desfere o golpe final ao antigo regime absolutista:

O monstro do Despotismo.

Quanto ao soneto com o mote “Ergue-se aos Ceos da Liberdade o Busto” composto por quatro estrofes, encerra nas três primeiras uma crítica direcionada ao Antigo Regime, sendo que em cada estrofe é como se sublinhasse características desse regime absolutista, nomeadamente o agrarismo; a inquisição, e o reinado a partir do Brasil, enquanto na última estrofe assistimos à mudança de tom com o elogio à Constituição: Já não teme a Innocencia um Mando injusto / Pois da Lei no alicerce soberano / Ergue-se ao Ceos da Liberdade o Busto.              

E o último soneto, que nos é apresentado também por J.R.G., quis reacender a grandeza dos Lusíadas, e, aqui e ali, percebe-se também que vai ao encontro da pena poética de José Coelho de Lemos (1817) e de [António Ribeiro dos Santos6] Elpino Duriense (1812), donde o que sobressai é também um elogio à Constituição, e que fica bastante evidente sobretudo na terceira estrofe: Mas por ventura nossa aos Ceos chegaram / Ardentes votos7, que cruzando os ares / Nova ordem de coisas alcançaram.  E Lysia (personificação da cidade de Lisboa), inaugurou o soneto, a recuperar o protagonismo de outrora. 

Pelo que fica claro que o reportório litero-musical constitucional, com expoente máximo nos hinos8, foi uma força motriz na implementação do regime constitucional, contribuindo significativamente para a construção e afirmação da identidade nacional.  Alegre Martínez9, Prof. de Direito Constitucional na Universidade de Léon, explica esse contexto emocional do hino, afirmando que enquanto canção tem duas funções primordiais identificadas “de louvor a deuses e a heróis”, e colocando-o como tradutor da “expressão do sentimento coletivo, e possuidor de um valor integrador capaz de gerar sentimentos de coesão e unidade” (2008: 12-14). 

Preocupação que parece ter renascido atualmente em França com a aprovação da proposta feita pelo deputado Ciotti que obrigou o sistema educativo francês a vergar-se à presença da bandeira de França e da União Europeia, e ao lema da Revolução Francesa e da letra da “Marselhesa” nas salas de aula do ensino público, do ensino básico ao secundário. 

 

 


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[1] Veja-se, p.e. : VALENTIM, Mª José Quaresma de Carvalho A. B. (2008) – A produção musical de índole política no período liberal (1820-1851). Lisboa: Tese de mestrado defendida na FCSH-UNL, e QUINTERO, Alejandro Pizarroso (2011) – História da propaganda política. Lisboa: Planeta Editora.  

[2] Que através de um concerto sinfónico integrado no “Festival ao Largo”, que terá lugar em julho de 2020, também se associou ao programa “Relembrar a Revolução de 1820. Liberdade e Cidadania”, promovido pelo Instituto de História Contemporânea da FCSH-UNL (em associação com uma dezena de parceiros) .   

[3]  Interessa dizer, que à data, o teatro de São Carlos estava concessionado, pelo governo, à empresa de Luiz Chiari (que contava com o apoio do intendente geral Diogo de Pina Manique), que terá perdido a concessão em detrimento de António Simão Mayer, a 8 de novembro desse ano de 1820, já sob a alçada do novo intendente Manuel Marinho Falcão e Castro. (In Francisco da Fonseca Benevides (1883) - Estudo Histórico sobre o Real Theatro de S. Carlos de Lisboa. Lisboa: Typographia Castro Irmão. Pág. 115).

[4]  Drama que toma o “Despotismo”, enquanto alegoria do regime absolutista, como vilão e que em contraponto apresenta o “Génio Lusitano” como o herói libertador de Lysia (personificação de Lisboa). Editado em Lisboa pela Typographia Bulhões.

[5]  Cidade que optou por começar em 2018 com o projeto “Rota Porto Liberal” – ww.rotaportoliberal.pt, assinalando assim várias datas em torno da Revolução Liberal, os 220 anos do nascimento de D. Pedro IV, os 200 da formação do Sinédrio, os 190 anos sob o enforcamento de 12 liberais pelo regime Miguelista e os 185 anos do Cerco (1832-33).

[6] Que, na sua versão de jurista, em 1789 já tinha elaborado as “Notas ao Plano do Novo Código de Direito Público de Portugal…”, onde identificou (no capítulo XIII) “a necessidade de reunir côrtes ou assembleias gerais da Nação”, com impressão da Universidade de Coimbra em 1844. 

[7] Fazendo alusão aos 141 deputados que subscreveram os 239º artigos da Constituição de 1822.

[8] E  é por António César das Neves e Gualdino de Campos no Cancioneiro de Músicas Populares, impresso no Porto pela Editora Empresa Cesar, Campos & C.ª, que ficámos a saber que o movimento liberal português, ao nível musical e simbólico, manteve estreita relação com o movimento espanhol. Pois, que “as ideias constitucionais germinadas no nosso país avolumaram-se e o hino del Riego achou eco em Portugal; todas as classes o cantavam, e distribuíam-se por toda a parte várias poesias que lhe eram adequadas. Foi como um estímulo para a propaganda da nossa constituição (…)” (1895: 245).

[9] ALEGRE MARTÍNEZ, Miguel Ángel (coord.) (2008) – El himno como simbolo político. Léon: Universidade de Léon. 

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