Diabos, feitiços e encantamentos na Lisboa medieval

Representação e fotografia do molde encontrado nas escavações arqueológicas na casa da Severa, Lisboa. (desenho Luísa Batalha)
Excerto do documento 132 do Livro dos Pregos (AML).

 

1385. Na segunda-feira, véspera de Santa Maria de Agosto, dia 14, depois da missa, as hostes guerreiras de D. João I, rei de Portugal, defrontaram o exército liderado pelo rei de Castela, Juan I, naquela que ficou conhecida para a história como a batalha de Aljubarrota. Nesse mesmo dia, “depois de comer”, numa Lisboa cercada pelo mar desde Abril, o concelho reuniu com o objectivo de interditar todos os actos de idolatria, de superstição e adivinhação.

A decisão foi tomada com plena consciência da frágil situação em que se encontrava o reino e a cidade:

 

considerando o perigo em que esta cidade e todo o reino ora está aqui cercada por mar e por terra e o Rei de Castela é dentro em este reino entre o qual e nosso senhor El Rei se espera cada um dia batalha… (Livro dos Pregos, doc. 132)

 

O objectivo da medida concelhia era obter o favor divino para o Rei, o reino e a cidade, através da conversão dos pecadores, que há muito tempo praticavam “grandes pecados”, “maldades” mágicas de um mundo pagão que ainda subsistia oculto dentro das casas dos lisboetas, nesse final do século XIV. A lista de pecados merece a nossa atenção:

 

…daqui em diante em esta cidade e em seu termo nenhuma pessoa não ouse nem obre de feitiços, nem de legamento, nem de chamar os diabos, nem descantações, nem de obra de veadeira, nem obra de carantellas, nem de jeitos, nem de sonhos, nem de encantamentos, nem lançe roda, nem lançe sortes, nem obre de adivinhamentos… …nem ponha mão nem meça cinta, nem escante olhado, nem lancem água per jeira, nem faça remédio outro algum para saúde de algum homem ou animália, que não aconselhe a arte da física.

 

Entre 2012 e 2013 foi encontrado, em escavações arqueológicas conduzidas na casa onde terá vivido a fadista Severa, um molde em cerâmica de um diabo, ou seja, uma figura parcialmente humana e animalesca, que se insere no universo das práticas pecaminosas da idolatria. O molde servia para realizar estatuetas em latão com a figura demoníaca e terá sido usado e guardado em meados, ou mesmo no final, do século XIV. Afigura-se como muito provável que as figuras concebidas com o diabólico molde da Casa da Severa se enquadrem precisamente no tipo de práticas que o concelho de Lisboa tentou erradicar, no dia da batalha de Aljubarrota.

Segundo o decreto concelhio, quem fosse apanhado em tais práticas, as aprendesse, as ensinasse ou as encobrisse em sua casa, seria degredado da cidade e do seu termo. Tratava-se de uma pena pesada, sobretudo para uma cidade cercada pelos castelhanos, onde se desconhecia ainda que em Aljubarrota, o plano desenhado a régua e esquadro pelo Condestável tinha tido um sucesso retumbante. Tal como percebeu Maria Helena da Cruz Coelho, o concelho de Lisboa dava sinal de uma alteração relevante na mentalidade de um povo ainda meio pagão, que praticava ainda a feitiçaria e outros encantamentos e magias, bem ilustrados pelo molde diabólico da casa da Severa. Em Novembro de 1385, já sabendo o concelho da cidade que a purificação religiosa tinha tido, aparentemente, bom efeito, pois os castelhanos foram derrotados e expulsos do reino, estabeleceu-se como decorreriam as procissões de celebração da vitória militar e o devido agradecimento a Deus. É claro que as feitiçarias e os encantamentos, o medir a cinta e o chamamento dos diabos não cessariam subitamente, mas é certo que essas práticas conheceram um caminho descendente, sendo severamente perseguidas, já não apenas pela igreja, mas também pelo próprio concelho que representava a cidade. A vitória de Aljubarrota, marcou o início do fim dos diabos, feitiços e encantamentos da Lisboa medieval.

 

Bibliografia:

AML. Livro dos Pregos, doc. 132.

Maria Helena da Cruz Coelho, D. João I: o que re-colheu Boa Memória, Lisboa, Círculo de Leitores, 2005.

António Marques; Casimiro, Tânia. “Um poder do outro mundo”: o demónio da Casa da Severa, Lisboa". In Espaços e poderes na Europa urbana medieval, editado por Amélia Aguiar Andrade; Catarina Tente; Gonçalo Melo da Silva; Sara Prata, 571-586. Lisboa, Portugal: IEM-UNL- Instituto de Estudos Medievais, 2018.

 

 

 

 

 

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