O mais antigo cemitério judaico de Lisboa

ANTT, Livro I da Extremadura, fl. 253. Disponível on-line em: https://digitarq.arquivos.pt/details?id=4223208

É ainda mal conhecido pelo público em geral o cemitério judaico da Lisboa medieval. No entanto, hoje em dia é possível delinear com precisão a sua localização, pois há evidências documentais e arqueológicas que o situam na encosta entre a Calçada do Monte e a Rua dos Lagares, na zona da Graça. Há muito que os historiadores perceberam que o cemitério judaico da Lisboa medieval se poderia situar nesse espaço, como propôs no longínquo ano de 1899, Pedro de Azevedo num artigo publicado no Archeologo Português. Esta importante informação apenas teve confirmação arqueológica mais de um século depois, em 2015, quando uma escavação arqueológica permitiu descobrir vestígios de centenas de indivíduos sepultados num lote da Rua dos Lagares. Entretanto, outras escavações arqueológicas na mesma área vieram confirmar uma complexa zona de necrópoles, que têm sido um autêntico quebra-cabeças para os arqueólogos. O problema é que nesse mesmo local foram identificadas duas zonas cemiteriais com tradições funerárias diferentes, uma claramente islâmica, onde se colocavam os mortos deitados de lado, com a face virada para Meca, com 60 indivíduos, e uma outra de tradição judaico-cristã, com os mortos deitados sobre as costas, com 276 indivíduos. Para além da realidade funerária, a mesma escavação identificou níveis de despejo de olarias que também aí terão funcionado. Os arqueólogos identificaram fases cronológicas diferentes, tentando oferecer uma lógica cronológica a todos estes vestígios. A fase mais antiga parece estar ligada ao cemitério judaico, que foi abandonado, provavelmente depois do édito de expulsão publicado por D. Manuel, em Dezembro de 1496. Torna-se depois mais difícil perceber o que aconteceu, pois os níveis de despejos das olarias e das sepulturas islâmicas confundem-se, sendo atribuída a ambos os momentos uma cronologia do século XVI. Seja como for, o que parece ser certo é que a ocupação do cemitério judaico foi anterior a tudo o resto.

Ao contrário dos cristãos, os judeus ibéricos, mantiveram o costume de sepultar os mortos em espaços cemiteriais situados fora de muros, tal como faziam os muçulmanos. Por isso é natural que tenha existido nos arredores da cidade um espaço cemiterial judaico desde o momento em que esta comunidade ganhou expressão demográfica. Vários historiadores concordam que é muito provável que a comunidade judaica de Lisboa já existisse na época de domínio islâmico e que o espaço da judiaria grande/velha fosse já então ocupado pela comunidade nesse período. Em total acordo com os achados arqueológicos acima referidos, um documento escrito em 1280, refere a existência de um “almocavara dos judeus” a sul do Monte de S. Gens. Posteriormente, vários documentos do reinado de D. Manuel, que descrevem a transferência de propriedades pertencentes às sinagogas de Lisboa, confirmam a existência de uma “barroca do almocavar dos judeus” situada na “Rua das Olarias que vay direito à Porta de Santo André” (ver imagem). Deste modo, associando as informações documentais com os dados arqueológicos, podemos perceber que o mais antigo cemitério judaico conhecido em Lisboa se situava no espaço onde foram realmente encontrados os 276 defuntos. É natural que esta necrópole judaica da Lisboa medieval ocupasse uma área ainda maior, o que não nos deve espantar, pois a comunidade era bastante dinâmica e numerosa. Devemos ainda acrescentar que a maioria das lápides que estariam neste cemitério, e que não foram encontradas pelos arqueólogos, foram usadas na construção do Hospital Real de todos-os-santos, durante o reinado de D. Manuel.

 

Bibliografia

 

Pedro de Azevedo, “Do Areeiro à mouraria (Topografia Histórica de Lisboa)”, O Archeologo Português, vol. V, 1899-1900.

Manuel Fialho Silva, "Mutação Urbana na Lisboa Medieval: das Taifas a D. Dinis", Tese de doutoramento em História, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2017.

Mónica Ponce, Tiago Nunes, Marina Pinto, Marina Lourenço, Filipe Oliveira, "O sítio dos lagares (Lisboa) : um espaço pluricultu(r)al" in Arqueologia em Portugal - 2017: estado da questão. ed. / José Morais Arnaud; Andrea Martins. Lisboa : Associação dos Arqueólogos Portugueses, 2017. pp. 1703-1714.

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