1229. Uma confraria de ferreiros em Lisboa

ANTT. Cónegos Regulares de Santo Agostinho, Mosteiro de Chelas, mç. 5, n.º 89

 

Num dia de Setembro de 1229, vários mesteirais lisboetas juntaram-se para tomar uma decisão: vender uma casa que a sua confraria possuía na cidade ao escrivão régio Gonçalo Sueiro. Trata-se de uma das primeiras referências documentais que confirma a existência de uma confraria profissional no reino português. Quem eram estes homens? Onde se situava esta casa? Como era Lisboa nessas primeiras décadas do século XIII? São questões que tentaremos responder analisando um fabuloso documento que está guardado na Torre do Tombo, inserido no importante fundo documental do Mosteiro de Chelas.

Os ferreiros Martinho Pires Satamira, Zarco, D. Romanus, Petrolino, D. Durão, D. Afonso, Domingos Pais, Martim Esteves, o besteiro Domingos Mocemude e os três prováveis irmãos João Eanes Faísca, Martim Eanes Faísca e Elvira Eanes, além de outros que não são nomeados eram os confrades dessa antiquíssima confraria de ferreiros que vendeu uma casa em Lisboa. Várias testemunhas confirmaram o acto:  Pedro Anes do Poço do Plano, João Pais, Pedro Franco, Pedro Pires cunhado de João Pais, D. Tomé, D. Fernando(?) Molassinus de Coimbra, Domingos Soares escrivão, Estevão Pais, Domingos Pires e Domingos Pires Petit. Na descrição das confrontações da casa vendida pela confraria encontramos propriedades do Almoxarife judeu, do seu filho Salomão, de Pedro Mendes, Pedro Soares e uma adega que pertencia a um D. Pascal.

Relativamente à localização da casa vendida pela confraria de ferreiros, parece-nos muito provável que se situasse na zona sul da paróquia de São Nicolau, próxima à judiaria, visto que  nas confrontações surgem duas propriedades de judeus. Era, portanto, uma casa que não estaria longe de uma das principais artérias comerciais da cidade medieval, a Corredoura, via que saia da principal porta da Cerca Velha, passando pelas Igrejas da Madalena e S. Nicolau e continuando na direção da Ribeira de Valverde.

A profusa antroponímia exibida neste documento indica uma realidade social complexa, revelando nomes que já há muitos séculos se ouviam em Lisboa, como era provavelmente o caso de D. Romanus ou de Petrolino, e outros nomes mais recentes na cidade, que ecoam laços tanto com o Sul como o Norte. Na sua maioria este documento refere vários nomes que chegaram à cidade depois da conquista aos muçulmanos, em 1147, oriundos do Norte do reino (Martim, Martinho, João, Pedro, Pires, Fernando, Tomé, Domingos), mas também um Pedro Franco, e um D. Pascal, nomes que remetem para uma possível origem ultrapirenaica, destacando-se um dos membros da família da baixa nobreza Petit, que décadas mais tarde, contará com um alcaide de Santarém.

Um dos antropónimos mais interessantes deste documento é o do besteiro Domingos Mocemude, também ele confrade desta singular confraria de ferreiros. O antropónimo Mocemude aponta para uma relação com a tribo masmuda, que teve origem nas montanhas africanas do Atlas, a mesma tribo dos almóadas, uma dinastia de berberes que ergueu um império num vasto território entre o norte de África e o sul da Península Ibérica. Seria Domingos Mocemude um descendente dessa tribo, que se teria por algum motivo, cristianizado, vivendo agora em Lisboa? A verdade é que a cidade de Lisboa funcionou como um ponto de charneira, inserida num espaço de fronteira entre o norte cristão e o império almóada, que controlava a margem sul do Tejo até à conquista de Alcácer do Sal, definitivamente tomada pelos cristãos em 1217. A tomada de Alcácer, uma dúzia de anos antes da venda da casa pertencente à confraria, tornou Lisboa numa cidade mais segura e estável, o que permitiu um desenvolvimento económico mais sólido depois dessa importante conquista.

A ausência de dados não nos permite perceber com clareza a biografia de Domingos Mocemude, nem das outras pessoas que surgem neste interessante documento, mas, seja como for, a sua identificação permite-nos vislumbrar a complexa realidade social dessa vibrante Lisboa medieval, nas primeiras décadas do século XIII.

 

Bibliografia:
Fialho Silva, Manuel; Lourinho, Inês. "O Hibridismo na Sociedade Olisiponense pós-1147". In Actas do II Colóquio Internacional sobre Moçárabes, 15 e 16 de Outubro de 2010, Silves. Silves, Portugal: Câmara Municipal de Silves, 2014.
ANTT. Cónegos Regulares de Santo Agostinho, Mosteiro de Chelas, mç. 5, n.º 89

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