Rua dos Cegos e Beco da Lapa, em Alfama.

O Leilão que se Faz cada dia pola menhã na Rua direita na Cidade de Goa Feito Polo natural por Ioan de Linschoten framengo.Desenho de Jan Huygen van Linschoten. Gravura de Johannes Baptista van Doetechum. 1596. Pormenor (Publicado em Jan Huygen van Linschoten - Itinerario. Amsterdão: Cornelis Claesz. 1596. 1ª edição.)
Casa seiscentista na rua dos Cegos. [191-?]. Benoliel, Joshua. 1873-1932. Cota(s): JBN001213
Camões na Gruta de Macau [com o escravo Jau]. Metrass, Francisco Augusto. 1853. Museu do Chiado. Lisboa.

Biografia breve de um cativo. Da Índia (Goa), pelo Brasil (Baía), para Portugal (Lisboa)

Não se tratando de um homem africano, a história de vida de António Pedro, o nome cristão de um homem cativo que viveu na segunda metade do século XVIII espelha, também, a narrativa de milhões de outras vidas escravizadas no quadro da escravatura do período Moderno. Nasceu livre na “Índia”, onde teria passado a sua existência como os demais antepassados, não fosse ter sido feito escravo. Nessa condição e à sombra de uma figura importante da História de Portugal, o vice-rei da Índia1  Marquês de Távora D. Francisco de Assis, integrou a comitiva do governante no seu regresso ao reino (Marquês que viria a ser executado em 1759, no âmbito do processo dos Távora). Em dois anos António Pedro percorreu e viveu em pelo menos três importantes centros nevrálgicos do império ultramarino português: Goa, com passagem por Salvador da Baía e Lisboa.

Chegado a Lisboa no mês de Setembro, em vésperas do fatídico terramoto de 1755, foi a sua indivisível condição de homem e o desejo de constituir uma família que o levou a contar a sua história. Não mencionando o seu nome primitivo, António Pedro esclarece que nasceu em Macuia [Macau?], na Índia. Tornado cativo em circunstâncias não referidas - não sendo de descartar as expedições militares do vice-rei da Índia Marquês de Távora contra o pirata Cananja, a sua declaração de guerra ao rei de Sunda e a tomada de praças e fortalezas como Piro, Ximpem e de Conem, entre outras - o que se sabe é que viria a ser batizado na fé católica numa igreja de S. Pedro de Panelim, em Goa. Na viagem para Portugal, a expedição fez uma breve paragem em S. Salvador da Baía, no Brasil.

Chegado a Lisboa, dois anos depois, em 1757, fora adquirido por outro senhor, Pedro Vicente Vidal, com quem residia algures na Rua dos Cegos, em Alfama.
Conhecera Catarina Maria em Salvador da Baía. Também escrava, Catarina nasceu em Angola e foi batizada em Luanda, na igreja de N. Sra. dos Remédios. Conheceu António Pedro no breve tempo em que ambos viveram na Baía, mas quis o destino que também ela viesse para Lisboa, na condição de escrava de Manuel Monteiro, com o qual residia no Beco da Lapa, também em Alfama.

Ambos reuniam condições para casar, pois era solteiros e descomprometidos, mas para o fazer e manter o matrimónio secreto, por temor à oposição dos seus senhores, pediram autorização ao juízo ecelsiástico onde declararam que sendo ambos “escravos e distantes de suas pátrias não podem denunciar-se nelas para casarem por estarem contratados para casar sem que seus senhores o saibam porque se hão-de opor a este casamento e neste termo querem justificar serem livres e desimpedidos em toda a parte para serem dispensados nos banhos de seus naturais e da Bahía onde estiveram quando vieram para esta corte e de Goa de onde foi o contraente batizado”.

1O Estado da Índia englobava o conjunto de cidades portuárias e de fortalezas que foram edificadas na costa oriental de África e na Ásia desde o Cabo da Boa Esperança, a oeste e que se estendia até às ilhas Molucas, a Macau e a Nagasáqui, a leste.

Bibliografia
AHPL, Expediente Geral, 1757, s.p.

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